OS TEMPOS SOMBRIOS DO PATRIMÔNIO

Notícias 23/07/2018

Nos dias 18, 19 e 20 de julho, o mandato do vereador Prof. Lino Peres esteve presente na II Conferência Patrimônio Cultural em Risco, no Palácio Cruz e Sousa, que trouxe para Florianópolis Leonardo Castriota, um grande estudioso da área e presidente nacional do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS-BR). Em três dias de discussão, Castriota trouxe uma reflexão sobre as políticas de patrimônio a partir da obra de Hanna Arendt “Homens em Tempos sombrios”, baseado em poema de Bertolt Brecht, e os riscos aos quais estão submetidos os patrimônios culturais no Brasil, e na aproximação ao nosso território. Os riscos, de acordo com linhas traçadas por órgãos internacionais, podem ser de natureza antrópica (causados pelo homem) ou/e natural,  e se espalham pelos quatro cantos do país.

O desmonte das políticas públicas de proteção aos patrimônios culturais brasileiros por meio do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que quase desapareceu com a extinção do Minc (Ministério da Cultura) - uma das primeiras ações do governo golpista de Michel Temer, que voltou atrás por pressão popular - e o corte gradativo de verbas evidencia a proposital ação de acabar com as conquistas democráticas dos últimos anos no campo do patrimônio.

Em Florianópolis, o SEPHAN (Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico e Natural do Município de Florianópolis), órgão de referencia nacional na elaboração e ações de proteção e salvaguarda, desapareceu no novo organograma da Prefeitura Municipal, também propositalmente, assim como  o sucateamento dos espaços culturais, como o Casarão Bento Silvério e o Arquivo Público Municipal .

A revogação dos decretos de tombamento das freguesias na gestão passada também é tratada com desdém pela gestão atual, bem como outros processos de tombamento, que neste momento são analisados, e a possível gentrificação do centro histórico, iniciada com a transformação elitista do Mercado Público, nos deixam alertas.

Além dos desmontes, cortes de recursos, especulação imobiliária, ainda lidamos com diversas ingerências politicas partidárias em processos de registro e tombamentos Brasil afora.  O silenciamento e invisibilidade de comunidades e culturas periféricas continuam latentes, denunciando o racismo estrutural no país do mito da democracia racial. Junto ao genocídio da juventude negra nas periferias e seu aprisionamento nos cárceres de Santa Catarina, vemos os resquícios da escravidão do povo negro, em que a maior marca de todos os tempos é o Cais do Valongo, na cidade do Rio de Janeiro.

Rossano Bastos, um dos palestrantes da Caonferência, lembrou que aportava lá o maior tráfico de escravos do mundo. Hoje transformado em Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, é o maior legado material e imaterial da presença negra no Brasil, cujas marcas e lembrança não podemos deixar esquecer. Ao contrário, deve transformar-se em uma Meca do povo negro e brasileiro, na proposta do arqueólogo.   

Garantir a proteção e a salvaguarda dos patrimônios é garantir a memória e a identidades dos povos. É primordial que a sociedade participe e esteja vigilante acerca destas  garantias constitucionais de proteção dos bens culturais, dos símbolos, dos ritos, das festas populares.  São necessárias políticas de estado, políticas de continuidade e empoderamento dos sujeitos para que os patrimônios estejam vivos na memoria de qualquer sociedade. Que os tempos sombrios virem luz!

Abaixo, o poema de Bertolt Brecht usado por Castriota

Bertolt Brecht:

Aos que virão depois de nós

I

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?

Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo que se tem para
viver na terra;

Seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!

Mas eu não consigo agir assim. É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

 

II

Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo
da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.

 

III

Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos, pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que vocês tiveram a sorte de escapar.

 

Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países que de
sapatos, desesperados!
quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para a
amizade, não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.

 

Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão.